Planejamento de Retomada

Planejamento de Retomada
Planejamento de Retomada

Em setembro de 2001, a revista Wired avaliou um livro recém-lançado pelo escritor de ciências Steven Johnson, intitulado Emergência: A vida integrada de formigas, cérebros, cidades e softwares. A premissa de Johnson: adaptações brilhantes são geradas por interconexões e pela cooperação entre componentes individuais de sistemas complexos. De forma otimista, ele previu que desenvolveria ferramentas tecnológicas que fariam com que os seres humanos “colaborassem em uma escala que rivalizaria apenas com as cidades que começamos a construir 6.000 anos atrás”. Duas décadas depois, enquanto lidamos com os medos, incertezas e dúvidas causados pela COVID-19, a previsão de Johnson parece reveladora e enfatiza uma possível transformação nos planos estratégicos e operacionais de organizações no mundo todo.

Em resposta ao distanciamento social, ordens de quarentena e lockdowns obrigatórios exigidos pela pandemia global da COVID-19, as pessoas estão colaborando virtualmente em uma escala nunca vista antes. Apesar das grandes dificuldades e perdas resultantes dessa crise que certamente enfrentaremos nos próximos meses e até mesmo anos, as principais organizações já estão começando a descobrir as mudanças organizacionais e adaptações estratégicas que serão implementadas depois que a crise diminuir. Elas já estão considerando, em outras palavras, seus planos de ressurgência.

Os líderes que tratam das considerações de ressurgência nas atividades de planejamento estratégico atuais capacitam suas empresas a administrar tal transição de modo mais eficaz quando ela chegar. Os melhores planos de ressurgência serão aqueles que aplicam as percepções obtidas pelos executivos durante a liderança, comunicação e colaboração associadas ao gerenciamento de crises.

Ressurgência: um novo tipo de planejamento estratégico

Algumas semanas após o início de uma crise, como uma crise que envolve transições rápidas e radicais para um modelo de trabalho remoto, pode não parecer o momento oportuno para começar a pensar no longo prazo. A maioria das empresas está começando a lidar com os vários desafios associados a funcionar em um ambiente pandêmico cuja duração permanece incerta. Acreditamos que o planejamento de ressurgência pode ajudar as organizações a enfrentar os mesmos desafios apresentados pela pandemia, o que cria um argumento convincente para avaliar agora a transição pós-crise.

Uma grande organização adotou exatamente essa abordagem, criando um plano de ressurgência enquanto avaliava seu plano estratégico geral desenvolvido antes do surto de COVID-19. O CEO e a equipe executiva da empresa queriam elaborar uma mensagem clara e concisa que representasse a abordagem e os objetivos da organização após a crise. Essa mensagem será usada como um guia à medida que as diversas unidades e escritórios da empresa desenvolvem planos localizados relacionados para lidar com seus desafios e necessidades exclusivos quando chegar a hora. Os líderes da empresa também acreditam que o plano ajudará os funcionários a reconhecer (e apreciar) como suas atividades atuais contribuirão para o sucesso futuro da empresa.

A consideração e a formulação de um plano de ressurgência podem gerar vantagens cruciais, mas é importante observar que os fatores por trás do sucesso futuro na maioria das empresas permanecem incertos por ora. As prioridades e os objetivos estratégicos que as empresas estão perseguindo no momento talvez precisem mudar drasticamente ao passar da defesa para o ataque. Uma rede de restaurantes que trabalha para aumentar a receita depois que as restrições de distanciamento social forem removidas e suas unidades reabrirem pode ter de investir em atividades de marketing antes de contratar funcionários adicionais. Um varejista com atividades on-line e off-line talvez sinta a súbita necessidade de transferir rapidamente os funcionários atualmente dedicados ao comércio eletrônico para as lojas físicas caso os consumidores demonstrem uma paixão desenfreada pelas compras presenciais depois do isolamento prolongado.

Conforme identificam os possíveis objetivos e necessidades da ressurgência, os líderes podem começar a avaliar os desafios que as empresas encontrarão ao migrar em direção a essas metas. Muitos aspectos das organizações deles serão diferentes. As forças de trabalho mudarão. Algumas diminuirão, pelo menos temporariamente (por exemplo, empresas de petróleo e gás, companhias aéreas), enquanto outras crescerão (lojas on-line, mercados). É muito possível que um número maior de empresas faça ajustes para trabalhar de maneira muito mais virtual. O uso e o suporte de aplicativos e sistemas de TI serão diferentes e talvez precisem ser realocados. Também será preciso realocar funcionários para atender a novas prioridades.

Como os líderes experientes aprenderam ao conduzir suas organizações e colaboradores durante eventos ou crises significativos, como a pandemia global de COVID-19, comunicar e administrar as mudanças de forma eficaz é um esforço complexo e desafiador. A transição para um ambiente pós-crise envolverá alterações substanciais para empresas e seus funcionários.

Ter uma visão e uma direção fortes para a ressurgência em vigor ajuda os funcionários a entender a necessidade da mudança. Um plano de ressurgência oferece uma imagem clara de onde a empresa está e aonde deseja ir. Essa clareza é importante porque muitos funcionários esperam que “as coisas voltem ao normal” quando a crise acabar. Isso não acontecerá para muitas organizações. Ao contrário: haverá um novo status quo que os líderes precisão estabelecer e comunicar muito bem aos seus colaboradores.

Vendo oportunidades e benefícios futuros por meio das abordagens atuais

A clareza a longo prazo criada por um plano de ressurgência também oferece benefícios a curto prazo que serão gerados pelos esforços atuais de gerenciamento de crises.

Saber que existe um plano pós-crise pode ajudar os funcionários a se preocupar menos com o futuro e se concentrar mais em como podem ajudar a estabilizar a organização, ao mesmo tempo em que fazem sua parte para posicionar a empresa para aproveitar as oportunidades pós-crise. Essa perspectiva geral é capaz de engajar pessoas e inspirá-las a gerar ideias inovadoras a respeito de como podem reformular as próprias funções para beneficiar a organização.

A existência de uma visão e de um plano de ressurgência também deve motivar os líderes a manter os olhos abertos para novas abordagens, ferramentas e talentos que podem surgir no laboratório das operações e experimentos de gerenciamento de crises. Tais avanços podem ser úteis para a organização depois que a crise diminuir. Portanto, os líderes devem considerar a possibilidade de obter informações sobre:

  • Novas ferramentas colaborativas e outras tecnologias: durante a imensa transição para um modelo de trabalho remoto, as forças de trabalho adaptaram várias ferramentas colaborativas baseadas em vídeo e texto aos seus próprios ritmos. O uso de ferramentas de fluxo de trabalho com base em nuvem também cresceu. Esses tipos de tecnologias já assumiram um valor recém-descoberto. A utilização delas poderá crescer no futuro para auxiliar em outros esforços de gerenciamento de mudanças, assim como em iniciativas de transformação e inovação em curso.
  • Novas abordagens de colaboração e inovação: as organizações implementaram novos exercícios e abordagens de design thinking – com frequência, pela primeira vez em contexto virtual – que ajudam a gerar novas ideias para solucionar problemas, promover mudanças culturais e derrubar barreiras à inovação. Valerá a pena incorporar muitas dessas abordagens na organização a longo prazo e expandi-las em um ambiente pós-crise.
  • Novos estilos de liderança e comunicação: dadas as ameaças graves e históricas representadas pela pandemia, os líderes passaram mais tempo demonstrando empatia para com os funcionários e se comunicando de maneira clara e franca. Dedicaram menos tempo à implementação de abordagens e táticas motivacionais tradicionais que costumam ser compartilhadas quando o desempenho é insuficiente. As novas abordagens de comunicação e engajamento de funcionários provavelmente determinarão as futuras estratégias de liderança e engajamento de pessoas.
  • Novos candidatos para a liderança: tempos extraordinários oferecem oportunidades férteis para o florescimento de fortes líderes futuros. Temos visto funcionários demonstrando uma calma inquietante sob pressão e uma sabedoria muito além da idade desde que a pandemia foi declarada. Por exemplo, durante uma das duas reuniões semanais realizadas pelo nosso escritório em Chicago, uma jovem consultora percebeu que a equipe estava tendo dificuldade com a terminologia médica e de saúde relacionada à virologia e à pandemia. Na reunião seguinte, ela fez uma apresentação breve e convincente, baseada em pesquisas meticulosas que realizou em seu tempo livre, que proporcionou ao escritório inteiro o nível básico de entendimento de que precisávamos para nos comunicar de maneira eficaz e eficiente sobre a COVID-19. Esse tipo de iniciativa e habilidade é um forte indicador de excelência em liderança. Os líderes atuais devem prestar atenção nos indivíduos que brilham em condições adversas e imprevistas.[1]

Para encerrar

A crise da COVID-19 apresenta um teste para a liderança e a resiliência. Frequentemente ouvimos referências à palavra “triagem”, no contexto das instituições de saúde e dos socorristas que continuam seus esforços heroicos durante a pandemia global, assim como das organizações que estão reformulando suas estratégias de curto prazo para gerar receita e oferecer suporte aos clientes. A triagem em termos de priorizar e repriorizar tarefas e atividades será uma arte necessária para a maioria das organizações no futuro previsível.

Além disso, seria bom que as organizações utilizassem seus esforços atuais e abordagens inovadoras para criar planos de ressurgência. Sabemos que estamos vivendo um momento histórico, que apresenta desafios sem precedentes para as organizações. Mas também sabemos que as coisas melhorarão. Quando isso acontecer e a economia ganhar força, as organizações precisarão de um plano forte para a ressurgência que promova uma abordagem eficaz de gerenciamento de mudanças e de conexão com seus colaboradores.

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