O seu negócio está imune às rupturas na cadeia de suprimentos?

O seu negócio está imune às rupturas na cadeia de suprimentos?
O seu negócio está imune às rupturas na cadeia de suprimentos?

A doença do coronavírus 2019 (COVID-19), que surgiu na região central da China no final de 2019, espalhou-se para 144 países até 15 de março, infectando mais de 124.800 pessoas. Mais de 6.500 mortes foram associadas ao vírus. Há preocupações de que a pandemia, que também interrompeu operações de manufatura e cadeias de suprimentos em todo o mundo (além de ter causado um dos mais acentuados declínios registrados nos mercados financeiros), possa ser a catalisadora de uma recessão econômica global. Alguns especialistas preveem que a economia chinesa poderá apresentar uma contração pela primeira vez em quase uma década. Infelizmente, no momento, não há um fim claro à vista para os problemas.

O surto de COVID-19 é disruptivo e mortal. Entretanto, não é um evento totalmente inesperado. Após a epidemia de coronavírus SARS em 2002-2003 e o surto de MERS em 2015, sempre foi uma questão de “quando” (e não “se”) surgiria um surto viral novo, grave e mais disseminado. Nenhuma empresa que faça atividades regulares de análise de riscos e análise de impacto nos negócios deve ter se surpreendido com a COVID-19, pois o potencial de uma crise de saúde em grande escala deve ser considerado nos programas de gerenciamento da continuidade dos negócios (business continuity management, ou BCM) e de resiliência operacional de qualquer organização.

Entretanto, conforme a pandemia de COVID-19 se espalha, muitas empresas estão percebendo que podem não estar preparadas para lidar com a interrupção nos negócios relacionada a esse evento, inclusive pela perspectiva da cadeia de suprimentos.

Uma excelente oportunidade para as empresas avaliarem sua exposição ao risco — e agir para reduzi-la

Considerando a grande interrupção que as cadeias de suprimentos globais sentiram apenas na última década, poderíamos dizer que as empresas devem estar prontas para enfrentar essa nova crise. Em 2011, por exemplo, o terremoto e o tsunami de Tohoku no Japão e as graves enchentes na Tailândia testaram severamente a coragem de muitas empresas em vários setores, suas cadeias de suprimentos e a resiliência operacional, expondo grandes pontos fracos e afetando as operações e a produtividade por meses e até mesmo anos — ou, em alguns casos, de forma permanente.

A pandemia da COVID-19 apenas reforça o fato de que todas as empresas precisam entender, no mínimo:

  • Quem são seus principais fornecedores (incluindo recursos de primeiro, segundo e terceiro nível)
  • Onde esses fornecedores estão localizados, assim como a proximidade geográfica entre eles
  • Quais fontes alternativas e qualificadas estão disponíveis em caso de uma crise (isso inclui determinar quais fontes secundárias existem fora dos mercados primários para fornecimento, distribuição e produção, bem como quais fontes locais poderiam ser aproveitadas nos principais mercados da empresa)
  • Com que rapidez a empresa pode migrar para o uso de fontes alternativas
  • Quais riscos em potencial estão envolvidos no uso de fontes alternativas (por exemplo, problemas de qualidade do produto, custo mais elevado dos materiais)
  • Por quanto tempo a empresa poderia operar após uma interrupção severa e prolongada na cadeia de suprimentos

As empresas também devem considerar a realização destas três atividades conforme o surto de COVID-19 continua ocorrendo:

1. Utilizar um forte programa de risco de terceiros (gerenciamento de fornecedores) como parte do processo de abastecimento

Quando acontecem interrupções na cadeia de suprimentos, o valor do abastecimento estratégico se torna mais aparente. Investindo nas relações e no gerenciamento de fornecedores, as empresas adquirem uma visão mais completa da cadeia de suprimentos, incluindo os vários níveis de fornecedores que seus fornecedores estratégicos usam. Essas informações ajudam as empresas a controlar custos e aumentar a eficiência, a qualidade e a flexibilidade em toda a cadeia de suprimentos, bem como a reduzir o risco. No entanto, para obter tais informações e monitorar os riscos de modo persistente, as empresas precisam ter:

  • Um programa eficaz de gerenciamento de riscos de fornecedores (vendor risk management, ou VRM) para entender os riscos dos fornecedores, inspecionar e testar fornecedores, documentar os resultados desses testes e muito mais
  • Um forte programa de gerenciamento de riscos de terceiros (third-party risk management, ou TPRM) para identificar e controlar pontos fracos em potencial (por exemplo, problemas de qualidade, riscos de cibersegurança) que existem mais a fundo na cadeia de suprimentos
  • As soluções e ferramentas tecnológicas certas para apoiar tais esforços

A COVID-19 é um lembrete de que esses investimentos podem gerar valor para empresas de muitas formas, incluindo maior disponibilidade de recursos e um melhor gerenciamento do risco de geolocalização. Este é o momento ideal para que as empresas examinem com atenção sua abordagem atual de abastecimento estratégico, além de atividades relacionadas, como VRM e TPRM, a fim de determinar onde podem fazer melhorias para que consigam sair da crise atual na posição mais forte possível.

2. Revisar os contratos de fornecedores

Como explicamos em uma publicação de blog anterior, escrita após o Furacão Michael em 2018, as empresas também devem esperar que todos os fornecedores críticos sejam capazes de demonstrar como avaliam seus riscos. Além disso, deve haver um entendimento formal e por escrito de exatamente como o fornecedor manteria o suprimento em caso de um desastre. Algumas opções incluem estabelecer um preço fixo, negociar um suprimento priorizado ou contar com fontes reservas na cadeia de suprimentos do fornecedor.

3. Priorizar a sustentabilidade da cadeia de suprimentos

Muitas empresas já estão sob pressão de investidores, clientes, reguladores e outros para aumentar o foco em questões ambientais, sociais e de governança (environmental, social and governance, ou ESG) e adotar práticas de negócios sustentáveis. Como discutimos em uma publicação recente, a grande maioria das questões de sustentabilidade e responsabilidade social são externas. Elas vão desde como as matérias-primas são obtidas até onde e em quais circunstâncias os produtos são feitos.

Um dos benefícios menos óbvios, mas importantes, do gerenciamento robusto de riscos de ESG nas cadeias de suprimentos é a redução da chance de interrupção na cadeia de suprimentos, inclusive da escassez repentina de peças e materiais. Por conseguinte, para empresas que ainda precisam pensar em tornar as cadeias de suprimentos sustentáveis um imperativo de negócios estratégico, este pode ser o momento certo para refletir com seriedade.

Fatores que intensificaram o impacto inicial da COVID-19 nas cadeias de suprimentos

A pandemia de COVID-19 é muito grave. Porém, como todas as crises, ela acabará perdendo forçando e passando. Para o bem da população humana, esperamos que seja logo. Enquanto isso, muitas organizações estão preocupadas com os impactos atuais e os possíveis impactos a longo prazo nos negócios por causa da COVID-19. Pela perspectiva da manufatura e da cadeia de suprimentos, dois fatores importantes ajudaram a aumentar a ansiedade inicial das empresas em relação a esse evento:

Tempo. O surto viral surgiu no final de 2019, quando as empresas tinham pouco ou nenhum inventário em estoque. Muitas fábricas na China fecharam por várias semanas durante as férias de inverno no Hemisfério Norte, inclusive durante as celebrações do Ano Novo Lunar, que começam no final de janeiro. A China também ordenou o fechamento de fábricas na maioria das suas províncias enquanto tentava controlar o surto de COVID-19 que começou em Wuhan, a capital da província de Hubei e um importante polo de manufatura. Enquanto as fábricas começam a retomar as atividades na China, a produção está atrasada, porque pouco ou quase nada foi feito desde o início de 2020.

Eficiência. Normalmente, a eficiência é algo positivo. No entanto, a ampla adoção de técnicas de manufatura e entrega just-in-time (JIT) e de práticas lean de manufatura e inventário, o crescente uso de offshoring e terceirização e a maior dependência da tomada de decisão baseada em dados levaram as empresas a limitar suas cadeias de suprimentos, trabalhar com menos fornecedores, reduzir os inventários e manter um “estoque de segurança” menor. O resultado: quando uma grande crise afeta a cadeia de suprimentos, a interrupção é sentida de forma rápida e aguda.

As empresas devem considerar as realidades mais recentes à medida que tentam melhorar o planejamento da continuidade dos negócios e avaliar o risco da cadeia de suprimentos, inclusive os riscos de fornecedores e terceiros. Mesmo no meio de uma crise de saúde global como a pandemia de COVID-19, há muitas ações estratégicas e construtivas que as empresas podem realizar para estabilizar a cadeia de suprimentos e desenvolver um plano de resposta da cadeia de suprimentos capaz de ajudá-las a enfrentar as inevitáveis interrupções futuras de modo mais eficiente. As lições aprendidas com a crise atual podem orientar essas ações.

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